não é gaza, é brasil
zona norte do rio de janeiro vira terra de abate e quem não se comove é desumano
há um tempo que a indignação coletiva brasileira não tomava conta do fervilhar do sangue de um ser humano. quem, vivo, nos dias 28 e 29 de outubro de 2025, não se indignou, revoltou, sofreu e sentiu os algozes de um estado falido e nefasto do rio de janeiro, precisa rever seu senso de humanismo.
foi preciso respirar várias vezes para tomar dimensão do estrago. da dor. do sofrimento. o complexo do alemão e o complexo da penha, zona norte do rio de janeiro, se tornaram o próprio cenário de guerra. corpos enfileirados no chão como se fosse um abate, um frigorífico. sim, a carne mais barata do mercado ainda continua sendo a negra. e, para o governo do estado, ela já não vale mais nada.
desespero. choro. gritos de moradores que precisavam ir encontrar, na zona da mata (uma área de preservação que liga os dois complexos), os corpos dilacerados pela violência institucionalizada. preciso me ater aqui e me posicionar: não estou defendendo bandidos, criminosos ou traficantes. mas a resposta para a falta de segurança que temos está em normalizar uma chacina? onde uma operação policial dessa magnitude muda a realidade atual? quais são os dados que podem sustentar que essa é a solução? depois da dita operação, o que mudou?
cheiro de morte e ar denso. todos que estavam ali relatavam. e o governador claudio castro, mandante da operação, a colocou como um sucesso e bem-sucedida. sucesso para o seu palanque político. em que muitos desumanos, enlouquecidos por ver a desgraça do povo que sofre desde os navios negreiros.
sim, a criminalização da população negra é um subproduto da escravidão, já diria angela davis.
mais de 100 pessoas foram executadas de forma brutal e arquitetada. a operação não foi para cumprir mandado de prisão. teve alvo. mira. e abate. poderia ser um primo, irmão, meu pai. não consigo mais ter estômago para continuar a escrever, mas minha indignação me leva a organizar a revolta. não podemos deixar que derramamento de sangue vire normalidade.
a favela precisa de arte, educação, saúde e humanização. cadê o estado carniceiro para investir na vida daquelas pessoas? das que nem beirando a margem vivem? é só dor, tristeza e desigualdade? o problema não está na favela. quem financia o crime? vai existir chacina pra bandido que anda de terno e gravata?
a polícia e o estado genocida e racista praticaram a maior chacina já vista na história do rio de janeiro. praticaram o terror racial. existe um alvo a ser abatido, e continua sendo a pele preta.



