o que aprendi quando parti
repartir é a melhor maneira de florescer
FRASE DA SEMANA “viver é partir, voltar e repartir”
carrego essa frase da música É Tudo Pra Ontem, do Emicida, como um lema da minha vida. vou partilhar um pouco o porquê disso. logo após finalizar o ensino médio, aos 18 anos, saí de casa, da minha cidade, do meu estado, e fui em busca do novo (quero deixar como uma boa aventura de enfrentar desafios, mas era só o desejo de cumprir a cartilha: sair do ensino médio e ir para uma universidade — para qualquer pessoa dentro da bolha da classe média).
não sabia eu o que me esperava. uma simples mudança pode ser um alvorecer, e foi para mim. como em uma metamorfose, renasci; me tornei uma pessoa da qual um dia tinha imaginado, mas jamais esperava que chegaria tão cedo.
experimentei vidas além da minha. era apenas uma segunda viagem para fora do meu estado, tive que encontrar uma moradia, organizar minhas finanças, ter olhar atento para identificar pessoas boas ou quem era bom para mim, (sempre tem aqueles que querem se aproveitar da bondade dos inocentes.) e quebrei a lógica evangélica que existia na minha cabeça.
sim, ainda tem esse ponto. fui uma adolescente/jovem, como diria blogueirinha, evangê e precisava lidar com os paradigmas errados que a igreja impôs goela abaixo em mim: saídas, bebidinhas, amigos fora do mundo que conhecia. esse ponto já foi uma revolução para mim. porém, o alvorecer veio mesmo conhecendo o dia a dia de uma universidade federal.
entendo porque os “pastores” teimam que seus liderados e ovelhinhas não vão para uma universidade (salvo aqui o queridíssimo pastor André Valadão): as ovelhas podem acordar e deixar de agradar somente ao homem, interessado que elas virem apenas reprodutoras de seus dogmas. a universidade foi a quebra total da ignorância que a interpretação da igreja me fazia ter.
eu comecei a pensar por mim, a decifrar a vida não apenas com as lentes dos preconceitos e do carma do pecado. existe vida para além do “bem e mal” que as igrejas pregam — e aqui não quero apenas tacar hater na igreja; muitas delas têm um trabalho excelente de comunidade e social: ajudam, valorizam pessoas e não são legalistas, apenas pregam o evangelho de Jesus Cristo. e tá tudo bem!
não vivia nessa realidade. a minha realidade era a grande briga do diabo contra Deus. lembro de uma vez, estando em um culto, em que tinha uma travesti. o pastor chamou ela à frente, perto do altar. começou a rasgar alguns adereços femininos que ela tinha no corpo e disse: “a partir de hoje você vira homem, não mais mulher. Deus te fez homem.” aquilo me chocou; fiquei dias pensando na exposição daquela pessoa.
não bastou. alguns dias se passaram, e o pastor veio a conter uma história para aludir às pessoas de que Deus dá oportunidade de salvação, e são as pessoas que a perdem; e que as pessoas precisam estar atentas a essas oportunidades para não ir para o inferno. e, na infelicidade, contou sobre a travesti, que teria tirado a própria vida dias depois que ele a “libertou”, mas ela não quis seguir o caminho, e o diabo a teria levado.
gente, tenho certeza de que ela não teve acompanhamento, não recebeu ajuda para além daquela noite, não recebeu apoio psicológico; apenas que Deus a teria “libertado da homossexualidade”. uma violência sem tamanho, e só penso que quem tem a morte dessa travesti nas mãos foi o pastor…
a lembrança da minha pobre vida evangélica me leva a pensar que nem tudo poderia ser verdade e validado dentro da igreja. com esse incômodo, comecei a ter acesso a títulos sobre o mundo LGBT e, sobretudo, da negritude. tornei a valorizar meus traços, a não mais achar que meu corpo era errado, mas que eu deveria impor minha ocupação. a partir de então me reafirmo enquanto mulher negra, me unindo a coletivos, aprendo a reivindicar e a me colocar em espaços que antes não me eram aceitos.
ocupo câmara municipal, faço trabalhos em assessorias, entro em veículos jornalísticos até ao nível de abrangência nacional; me transformo longe da minha realidade que antes era amarga, em uma cidade terrivelmente conservadora. me transformo longe de onde saí, dos credos religiosos que me foram ensinados desde bebê e não tive tempo para raciocinar por mim.
renasço. cresço. floresço.
de um estado fui para outro, mas algo me puxou de volta. no movimento para mudar de vida, para estudar, trampar e, por que não, fugir? me distanciei do que um dia pertenci, de onde cresci, dos meus, da minha família.
só tive olhos para o que era ruim. sim, e boa parte ainda é ruim, mas foi onde tive espaço para sobreviver. não tenho como matar quem eu era para me tornar quem sou. sou parte de quem fui. (pareceu confuso, mas em alguma linha faz sentido)
quando voltei para o meu território, encontrei minhas raízes, resgatei um respiro da falta de fôlego que a vida adulta impusera. olhei para o que falta, mas também comecei a pensar no que posso ajudar melhorar. para que até os meus vivam melhor.
do álbum que me acompanha, comecei a refletir em uma música: É Tudo Pra Ontem. sim, a vontade de mudar de realidade é pra ontem; de parar de sofrer as microviolências do dia a dia é pra ontem; de viver uma vida de qualidade é pra ontem.
e por meio dela encontrei uma frase que sentenciou: “viver é partir, voltar e repartir.” eu parti, mas voltei, e então vou repartir para que outros tenham possibilidade de esperançar.
na semana passada, fiz uma formação sobre adaptação climática, que conversa um pouco sobre os impactos das mudanças climáticas, o racismo ambiental, a falta de acesso a lazer e uma cidade que proporcione conforto. aplicar essa formação foi, de fato, colocar em evidência que o que eu aprendo não vou reter só para mim. tenho possibilidade de abrir os olhos do próximo e colocar em contato alternativas que não tiveram oportunidade de ter.
eu fui, parti, vivi, e hoje vou repartir — porque viver é isso! e isso faz parte do modo de ser alguém transformador. não precisa ter grandes feitos, mas às vezes partilhar uma informação já é repartir; escutar com atenção e trazer soluções é repartir; contar sobre experiências e o que se tem de acesso em outros lugares é repartir.
e o melhor: onde eu estiver, eu vou partilhar. porque o meu voltar não é apenas no território, mas nas pessoas que passam por nossas vidas, nos outros lugares em que paramos. viver é partir, voltar e repartir.
o repartir é a melhor maneira de florescer.


